Publicado, originalmente, em Psicologia.pt a: 2019-04-21
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Paulo Passos
Psicólogo clínico, Braga/Portugal
"A pequena Glórinha estava forrada com um creme branco, colocado em pasta, para a proteger das radiações solares. Na cara só se viam os olhos.
Usava, tal como a avó, uma touca de borracha na cabeça para não molhar o
cabelo. A touca de Glórinha era
toda cor-de-laranja, mas com relevos que desenhavam formas de peixes. Condizia com o fato de banho onde a pequena estava enfiada, que
também era cor-de-laranja, com uns
favos salientes em branco, que a faziam parecer insuflada, em sobreposição à sua frágil estrutura.
Não saía da
zona de sombra do guarda-sol de praia, por imposição da avó. Podia sair dali quando a avó ia à água e a levava para nela se apoiar.
Quando
regressavam ao guarda-sol, invariavelmente era feita uma visita à imponente caixa térmica.
Eleutéria nunca a
voltava a fechar sem estar já a mastigar alguma coisa.
Glória Micaela, alternativa única de nome e estipulado pela junção do nome
(Glória) da tia-madrinha materna, e
da filha desta (Micaela), prima quatro anos mais velha, era uma criança diminuta, em questões de apetite.
Nunca um vendedor de bolos, bebidas ou gelados, que circulavam pela praia,
por ali passava sem que Eleutéria o mandasse parar.
Escolhia sempre alguma coisa.
Aos refrigerantes, não dava tempo de o vendedor fazer o troco do dinheiro,
na bolsa que trazia na cintura, para onde tinha que olhar.
Quando olhava para ela já a garrafa estava vazia e ela com o braço esticado
a pedir outro, enquanto enterrava o fundo da garrafa vazia na areia.
Avistou um vendedor de gelados.
O rapaz ouve o chamamento de Eleutéria e freou-se, qualificando o seu
produto.
Não era preciso tanto trabalho pois era certo que Eleutéria ia comprar um
gelado para Glórinha e outro para si.
Escolheram e, enquanto Eleutéria devorava o dela, a neta lambia, pasmada e lentamente, o seu.
Um calor sem tréguas e, pouco tempo depois, já Glórinha era um vale de
gelado derretido.
No pouco chocolate que ainda se prendia ao pau, pousou e colou-se uma
descomunal mosca vareja esverdeada.
A pequena, sem se aperceber, continuava a lamber de um lado, e a mosca
satisfazia-se do outro.
Eleutéria vê aquele
preparo, sai disparada para junto da neta, dá uma sacudidela para afastar a mosca, mas vai
tudo. Vai mosca, vai gelado e vai Glórinha, que pega num berreiro, aumentando a
javardice em que toda ela já estava.
Estava melada até à
alma.
Era gelado derretido, era ranho, era creme solar, era areia, eram lágrimas,
era baba, era a avó a reclamar, enquanto agarrava em toda aquela tralha para se irem
embora.
Tinha-se acabado a tarde de praia.
Em direcção à estrada, ia e resmungava Eleutéria, atulhada de sacos,
guarda-sol, caixa térmica, e um grande saco com tudo o que era brinquedo de praia da neta.
Eleutéria ainda não tinha tirado a touca da cabeça e era seguida por
Glórinha, que ainda não tinha parado de chorar.
Atravessaram a estrada e Eleutéria estatelou toda a tralha no chão,
despejando-se numa cadeira da mesa onde o marido estava sentado de esplanada."