Publicado, originalmente, em Psicologia.pt a: 2019-04-21
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Paulo Passos
Psicólogo clínico, Braga/Portugal
"A mesa já estava atulhada de canecas vazias e de pratos com cascas de marisco que Aristides Galante tinha comido.
Eleutéria chamou o
empregado, pediu uma garrafa de vinho branco fresca, camarões e um gelado para a neta.
Aristides Galante pediu mais uma caneca de cerveja.
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Aristides
Galante era um poço desmedido de subalternidade para com a mulher.
Nunca foi considerado em nada, exceptuando-se a
consideração elevadíssima com que era
contemplado, pela garantia do dinheiro que injectava na família e sustentava os
cartões dourados de Eleutéria.
Dentro de casa,
Aristides Galante, não era tido nem achado.
Vendo-os na
rua, ele era um penedo que seguia, sempre dois ou três passos atrás, a gaiteira e determinada mulher.
Homem rude, estatura média, abdómen bem saliente, tinha conseguido fortuna
à custa do seu trabalho, digno
de se dizer! Mas também às custas de algumas estratégias menos transparentes e de malabarismos que escondiam meandros que Aristides Galante tão bem conhecia.
Trabalhava na
construção civil desde os seus onze anos de idade, altura em que saiu da escola
com a terceira classe.
Burgesso era
a sua natural evidência e lucro era o seu maior objectivo - pilares da sua existência.
Fora de casa e, sobretudo no trabalho, não tinha pejo à exploração de
outros e dos próprios funcionários
da empresa. Nestes, no que dizia respeito ao pagamento que lhes eram devidos, arranjava sempre forma de cortar no número de horas
trabalhadas.
Já dava para
mais uma mariscada bem regada, que tanto apreciava.
Nunca passava muito tempo sem que a maior travessa, na marisqueira que mais
apreciasse, não estivesse transbordando à sua
frente, juntamente com fartas canecas de cerveja, onde as comezainas entravam
bem pelo tempo adentro.
Já recostado,
arrotava Aristides Galante, enquanto tirava bocados de marisco dos dentes, com
uma unha de lagosta.
O suor que
lhe escorria pelo rosto era afastado com as costas da mão, ainda com a pinça de um lavagante presa pelos dedos.
No rebordo da mais recente caneca de cerveja
iam-se já acumulando lascas de marisco. Glórinha adormecera na cadeira sem ter acabado de lamber o segundo gelado.
Sem assunto,
Aristides Galante e Eleutéria terminavam a manja, para sustento do peso dos feitios, feitos corpos.
Aristides Galante tentava levantar-se, mas a manobra foi dificultada pelo
excessivo carregamento de peso
sobre as, já meio falidas, articulações das pernas e pelos desequilíbrios adjacentes.
Eleutéria, com as mesmas privações de habilidades, proclamava que ainda
havia de chegar o dia em que mandaria trocar o pé, de Aristides Galante, por um
pujante pé de boi."