domingo, 19 de abril de 2026

CAFÉ COM LETRAS - MOCINHO DOS SONHOS (II)


MOCINHO DOS SONHOS (II)
(Janiel Martins, RN/Brasil)

José nasceu 29 anos antes de Daniel.
Criado, diariamente nas lides do trabalho de campo, do gado, de homem. 
Peão de igual, parceiro de quem o destino traçava, na labuta e correria acertada do galopante sabor e saber conduzir uma manada como se fosse um animal só.
Ficar no Sertão! A maneira mais violenta de o fazer! Sair dele!
Sair do Sertão é sair de si próprio!
Saiu, ficando em dor letal.
Chaga que sangra lágrimas, contorcendo a alma como o ardor do sal em ferida.
Saiu, estudou em cidade grande. 
Chorou as lágrimas de peão em dor de amor.
Começou e terminou o curso que optou, com a honra do labor, o homem do Sertão do Nordeste do Brasil.
Formou-se e regressou ao Sertão, com o amor que a perfeição escolheu.
José, nordestino sertanejo, casou com a mulher que era ele em fêmea.
Luísa, também médica, mas só nordestina.

Luísa e José pariram Daniel, no sereno e na luz do Sertão, na casa da fazenda. 
Nasceu com as comemorações e alegrias de genuína boa-ventura, de todos os que ali pertenciam.
Foi apresentado ao luar, pelas mãos do avô, erguido ao alto, num acompanhamento musical de um berreiro, adivinhador de determinação guerreira.
Intencionalmente parido no espaço que já era o seu desígnio.
Parido por vontade, pelo querer, parido ali ... ali no Sertão. 
No seu Sertão.

Sertanejo. Nascido e criado. Sem retorno...
O trabalho, o respeito, a liberdade, a igualdade, a amizade e a justiça foram os seus alimentos de crescimento.
Foi nutrido de amor e de igualdade!
O amor e o sorriso foram o bom dia de todos os dias!

Entre a cidade onde os pais viviam e trabalhavam e a fazenda onde vivia o avô, ficava o lugar de Daniel.
Com maior inclinação para o quotidiano da fazenda e do relacionamento com o avô e com todos os que ali viviam.
O seu endereço, psicologicamente oficial, era a fazenda, era a fazenda no Sertão.
Na cidade, onde vivia nos períodos escolares, nunca o Sertão esteve afastado da sua consciência e do seu pensamento.
À fazenda, onde se tornou conhecedor dos prazeres da vida livresca, regressava, invariavelmente, todos os fins-de-semana.
O rosto era o da felicidade da chegada de onde nunca tinha partido...
  

domingo, 12 de abril de 2026

CAFÉ COM LETRAS - MOCINHO DOS SONHOS (I)

MOCINHO DOS SONHOS (I)
(Janiel Martins, RN/Brasil)

Sereno do Sertão ... no Sertão do Nordeste do Brasil, Daniel foi parido com 52 centímetros e 3,550 quilogramas, por expressa vontade de quem viveu os desejos, sintonias e prazeres da sua concepção, os abastecidos e dadores da semente que nele desabrochou.
Parto natural, com recusa das citadinas mordomias e recursos hospitalares, homenageando todas as mulheres e homens que parem nas suas próprias mãos.
Daniel cresceu a absorver para ele o que era, naturalmente, dele. Absorveu o Sertão, num procedimento de imenso encanto e valorização, impregnando-se de essência do ter e ser sertanejo. 
Sertão que se lhe tatuou na origem da alma, nas vontades, nas desamarras e liberdades do tesão e da vida.
Seria, infalivelmente, o pujante sexo do Sertão transportado nele.
A força do Sertão feita Homem.
A força do tesão feita Daniel.

O avô, fazendeiro sertanejo, de cristalina alma de homem de igual para igual, de justo para justo, e repelente dos esquartejantes princípios de exploração e desrespeito. Homem da igualdade, do trabalho e da liberdade, honrava o chão que pisava, na cobertura difusora da nobreza da coerência da justa versão do direito.
Pai de José, homem construído e formado, da base ao topo, com a mestria exclusiva do nobre e belo Sertão.
Desígnios transmitidos em comunhão comunitária, pela exigência de quem respira o ar puro da honestidade.

domingo, 22 de março de 2026

CAFÉ COM LETRAS - O MACACO ALBINO


O MACACO ALBINO
(Janiel Martins, RN/Brasil)

Chegou ela, Ruth Pianista toda lampeira com seu guarda-chuva.
Então meu macaco alpino preferido!
Estais linda Ruth, estais bem erecta.
E tu como andas?
Pareço um porco. Só como, durmo, trabalho e encarcerado num monte de esterco no meu ambiente de trabalho. 
Tentam assediar a minha vida, mas eu não deixo.

É bonita a vida.
Acho tão pobre esta palavra bonita para definir a vida.
A vida é extraordinária e muito simplesmente cheia de complexidade. Alguns acham assim.
 
Por pouco não me derreto e torno-me universo.

Acho tão primitivo sepultar ou cremar um corpo. 
Quero ser lançado no vácuo, para que os ácidos continuem a dar choques. 


domingo, 8 de março de 2026

CAFÉ COM LETRAS - ATÉ ONDE PODEMOS SONHAR



ATÉ ONDE PODEMOS SONHAR
(Janiel Martins, RN/Brasil)

É injusto não sair da terra, nem num sonho.
Talvez onde não retornaremos?
É um encanto.
valerá a pena desencantar?
Seria injusto os sonhos morreram?
Os sonhos permanecerão vivos?
Seria injusto um morto acordar.
Cortaria o seu sonho.

A vida é pobre.
O pensamento é miserável.
Aqui na terra sempre queremos mais.
A morte é tão rica.
É um mistério que não fala.
Talvez o infinito do céu seja o nosso caminho!
Espero não cair, numa estrela.

Os planetas são homens.
De espírito corajoso.
E um dia será habitado.
As estrelas são atumultuados de espíritos medrosos.
As luas são espíritos invejosos.
Os meteoros são espíritos ruins.

O mundo é nada mais que outros mundos,
É uma freiada no pensamento que enriquece a vida.
Os sonhos ficarão para depois da morte.

domingo, 1 de março de 2026

CAFÉ COM LETRAS - O LADO TORTO

 

O LADO TORTO
(Janiel Martins, RN/Brasil)

Minhoquinha se endireita!
Nada Minhoquinha, estou vivendo a linha reta, a linha que me leva a vida.
Temos que viver o lado torto, Minhoquinha. 
É o lado que dá o sentimento novo, é o lado que luta contra o ir mais um pouco.
Se nós ficarmos parados, o tempo nos trocerar, temos que nos dar um nor de resistência.
É mesmo, Minhoquinha hoje eu acordei com a boca torta, ai eu pensei se eu ficar deitado a boca vai entorta mas ainda, eu vou e me levantar.
Minhoquinha tu fizeste bem, Minhoquinha hoje eu vi uma flor tão bonita, mas tão bonita que eu perguntei para ela, porque tu sois tão bonita.
E ela respondeu o que, Minhoquinha?
Não sei, mas eu acho que ela veio mostrar a beleza para o tempo.
É mesmo Minhoquinha, esses dias eu estava olhando pro céu e pensei a terra é a minha mãe o sol o meu pai, a lua minha irmã as estrelas o primos e o espaço é o quê mesmo, meu Minhoquinha?
É o pensamento que pensa, sem saber, que está pensado.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

CAFÉ COM LETRAS - POF, POF, POF


POF, POF, POF
(Janiel Martins, RN/Brasil)

Ti ti ti ti
Minha mãe, porque tu não me chamaste para nós colocamos o milho das galinhas?
Tu estavas a dormir tão bem.
Amanhã tu me chamas, por favor.
Chamo-te se tu falares certo.
Está bem, minha mãe.
Mãe posso ir para escola sozinho?
Não, tu és muito pequeno.
Eu vou minha mãe, eu não tenho medo.
Está bem, vamos tomar café e trocar de roupa, quando estiver faltando vinte minutos tu vais.
Posso ir agora!
Não são horas ainda.
Parei, pensei vou fugir, fugir.
Lá de longe ouvia- se uns gritos.
Cuidado peste, com os cachorros e o bicho papão.

Respirei e sorri por dentro e suspirei de alívio e um sorriso que senti no rosto e vi o sorriso no rosto, sendo que os olhos não enxergam o próprio rosto.

Mergulhei no silêncio do Sertão, ouviam-se os próprios ouvidos a estrelar, levando informações para o cérebro.
Gosto deste silêncio que trás este estrelarzinho.

Sentava-me numa cadeira ao fundo no lado esquerdo, bloqueava-me, só escutava o estrelar dos ouvidos, até que me divertia naquele ambiente escolar.

Gritava antes de chegar a casa mãe, mãe.
O que foi, menino?
Nada não, minha mãe

(Nem eu sabia, mas queria proteção)

Pareces um doido a gritar.
Que doido, minha mãe?
És tu, um tonto que anda a gritar.

(Hoje eu sentaria e conversaria, agachado, para mostrar que não existia diferença. A mãe estará sempre contigo para te proteger).

Tiras a roupa que amanhã vestes a mesma.

(Ajudas a mãe a guardar e manter organizada)

Está ai.
Colocaste no chão?

(Corri, com um alívio da tensão da escola e um sorriso sem som, parecendo que o corpo e o chão e silêncio era um corpo só, deslizava-me).

Tu levaste um caderno e trouxeste um monte de livro.
Foi a professora que deu. É pra quê isto, minha mãe?
É para estudar.
Ela falou que não podia rasgar.
Vou guardar se não os outros rasgam.

(Alguns tinham algumas imagens que o fascinavam, as letras não o chamavam tanta atenção)

Em ato de brutalidade, aqui e acolá, rasgavam-se algumas páginas.

Minha mãe, meu irmão rasgou o meu livro!
Tem tantas páginas não vai fazer falta.
É minha mãe!
É.
Estou com medo?
Não tenhas, ninguém vai ver, não chores.

Cadê o meu pai?
Está trabalhando.
Ele vai demorar a vir.
De hoje a oito dias.

(Não conhecia a palavra "saudades", a saudade não é uma palavra, antes da palavra vem o sentimento).

Braga/Portugal - 2026

A serpente sai para comer e volta a dormir e a pensar. 
Não sei muito, deve ser mais ou menos assim.
Olha na Internet.
Não precisa Paulo, quero escutar os ouvidos a mandar informações para o cérebro, gosto tanto de escutar este estrelar, mas temos de estar num sítio bem silencioso.
Acho que vou ser uma cobra e mergulhar no mundo dela. Não vou ser eu mesmo, mas no mundo dela. Uauu pulei no vácuo do universo só a escutar o estrelar dos meus ouvidos.
O corpo do homem é lindo.
Os frustrados não sabem usufruir da vida.



domingo, 18 de janeiro de 2026

CAFÉ COM LETRAS - O ESCURO, O GELO, O FOGO E EU


O ESCURO, O GELO, O FOGO E EU
(Janiel Martins, RN/Brasil)

No princípio era a escuridão
De tanto frio formou-se gelo
O gelo quebrou
E faíscas de fogo formou
As cinzas nasceram
E por aqui estou...