POFE, POFE, POFE
(Janiel Martins, RN/Brasil)
Minha mãe, porque tu não me chamaste para nós colocamos o milho das galinhas?
Tu estavas a dormir tão bem.
Amanhã tu me chamas, por favor.
Chamo-te se tu falares certo.
Está bem, minha mãe.
Mãe posso ir para escola sozinho?
Não, tu és muito pequeno.
Eu vou minha mãe, eu não tenho medo.
Está bem, vamos tomar café e trocar de roupa, quando estiver faltando vinte minutos tu vais.
Posso ir agora!
Não são horas ainda.
Parei, pensei vou fugir, fugir.
Lá de longe ouvia- se uns gritos.
Cuidado peste, com os cachorros e o bicho papão.
Respirei e sorri por dentro e suspirei de alívio e um sorriso que senti no rosto e vi o sorriso no rosto, sendo que os olhos não enxergam o próprio rosto.
Mergulhei no silêncio do Sertão, ouviam-se os próprios ouvidos a estrelar, levando informações para o cérebro.
Gosto deste silêncio que trás este estrelarzinho.
Sentava-me numa cadeira ao fundo no lado esquerdo, bloqueava-me, só escutava o estrelar dos ouvidos, até que me divertia naquele ambiente escolar.
Gritava antes de chegar a casa mãe, mãe.
O que foi, menino?
Nada não, minha mãe
(Nem eu sabia, mas queria proteção)
Pareces um doido a gritar.
Que doido, minha mãe?
És tu, um tonto que anda a gritar.
(Hoje eu sentaria e conversaria, agachado, para mostrar que não existia diferença. A mãe estará sempre contigo para te proteger).
Tiras a roupa que amanhã vestes a mesma.
(Ajudas a mãe a guardar e manter organizada)
Está ai.
Colocaste no chão?
(Corri, com um alívio da tensão da escola e um sorriso sem som, parecendo que o corpo e o chão e silêncio era um corpo só, deslizava-me).
Tu levaste um caderno e trouxeste um monte de livro.
Foi a professora que deu. É pra quê isto, minha mãe?
É para estudar.
Ela falou que não podia rasgar.
Vou guardar se não os outros rasgam.
(Alguns tinham algumas imagens que o fascinavam, as letras não o chamavam tanta atenção)
Em ato de brutalidade, aqui e acolá, rasgavam-se algumas páginas.
Minha mãe, meu irmão rasgou o meu livro!
Tem tantas páginas não vai fazer falta.
É minha mãe!
É.
Estou com medo?
Não tenhas, ninguém vai ver, não chores.
Cadê o meu pai?
Está trabalhando.
Ele vai demorar a vir.
De hoje a oito dias.
(Não conhecia a palavra "saudades", a saudade não é uma palavra, antes da palavra vem o sentimento).
Braga/Portugal - 2026
A serpente sai para comer e volta a dormir e a pensar.
Não sei muito, deve ser mais ou menos assim.
Olha na Internet.
Não precisa Paulo, quero escutar os ouvidos a mandar informações para o cérebro, gosto tanto de escutar este estrelar, mas temos de estar num sítio bem silencioso.
Acho que vou ser uma cobra e mergulhar no mundo dela. Não vou ser eu mesmo, mas no mundo dela. Uauu pulei no vácuo do universo só a escutar o estrelar dos meus ouvidos.
O corpo do homem é lindo.
Os frustrados não sabem usufruir da vida.
