quinta-feira, 17 de março de 2016

SUSTENTO DA ALMA - O TEMPO NÃO PÁRA


Cazuza - Fonte da imagem: internet


"...eu vou sobrevivendo sem um arranhão 
na caridade de quem me detesta..."


Cazuza - Fonte da imagem: internet


... dois versos do poema/letra “o tempo não pára”, 
de Cazuza,
integral, nobre, honrosa e 
orgulhosamente aqui transcrito.

Em análise de conteúdo de vida, de homem, de poeta e de pensador,
Cazuza nunca sentiu como um sobrevivente.
Cazuza foi, inteiramente, um vivente.

Assim, a análise literária do poema, impede o significado de "sobrevivente", 
neste terreno de grandiosidade existencial. 
Tem, o verso, o significante "sobrevivendo" mas, analiticamente, tem a menção de "vivente".
Acresce a esta consideração a presença do verbo no gerúndio.
Nunca Cazuza foi um "ser vivendo", deixando-se viver ... Não! Não ia arrastado!
Cazuza decidia, determinava, poetizava a existência e concretizava-a. 
Exemplificava, na vida, com novas roupagens da reivindicação.
Materializava a reivindicação de direitos, dos quais exigia vincado respeito.  
Ninguém, assim, é um morno gerúndio!
Sempre foi um presente do indicativo e, acrescido, 
de uma exemplar primeira pessoa do singular.
Era o exemplo!
Era um exemplo!
Exigia o direito, não o patético "direito" instituído e corruptor!

Cazuza não foi um vivente gerúndio!
Cazuza foi um vivente presente! Um vivente ativo e, orgulhosamente, erguido.
Nunca conheceu a mansidão!
Certificam os seus poemas, indubitavelmente!

Seria, assim, em tese, o sentimento e a intenção poética de Cazuza:

"...eu vivo sem um arranhão 
na caridade de quem me detesta..."

Agenor de Miranda Araújo Neto 
(Brasil / Rio de Janeiro, 04/04/1958 a 07/07/1990), 
conhecido por Cazuza, 
lamentavelmente falecido aos 32 anos. 

Fazem falta, tu e a tua poesia ,..., Cazuza! 
... tu e a tua poesia, por ti cantada ,..., Cazuzinha!

Ripostador para o equilíbrio e o direito sociais, salientado por indignação à incivilização  institucional, social e organizacional. 
Culminou-se na vida como um poeta e letrista denunciador da sua coerência; como um cantor denunciador dos atropelos que os sistemas sociais e políticos incutiram (e incutem!) nas valências da liberdade, da justiça e da igualdade.

Homenagem (mais uma) ... Cazuza.
Todas … não são muitas!

É o intento desta matéria ,…,  evidenciando-se pelo débito do inesquecível poema que, tão fielmente, traduz realidades mundanas, mesmo que, muitos corrosivos e infelizes oportunistas, queiram fazer crer estarem sanadas.



Cazuza - Fonte da imagem: internet

O TEMPO NÃO PÁRA
(Cazuza)

Disparo contra o sol 
sou forte sou por acaso 
minha metralhadora cheia de mágoas 
eu sou o cara 
cansado de correr 
na direção contrária 
sem pódio de chegada 
ou beijo de namorada 
eu sou mais um cara 

Mas se você achar que tô derrotado 
saiba que ainda estou rolando os dados 
por que o tempo 
o tempo não pára 
dias sim, dias não 
eu vou sobrevivendo sem um arranhão 
na caridade de quem me detesta 

a tua piscina está cheia de ratos 
tuas ideias não correspondem aos fatos 
o tempo não pára 
eu vejo um futuro que repete o passado 
eu vejo um museu de grandes novidades 
o tempo não pára 
não pára não não pára 

eu não tenho data pra comemorar 
às vezes os maus dias são de par em par 
procurando agulha no palheiro 
nas noites de frio é melhor nem nascer 
nas de calor se escolhe é matar ou morrer 
e assim nos tornamos brasileiros 

te chamam de ladrão, de bicha maconheiro 
transformam um país inteiro num puteiro 
pois assim se ganha mais dinheiro 

a tua piscina está cheia de ratos 
tuas ideias não correspondem aos fatos 
o tempo não pára 
eu vejo um futuro que repete o passado 
eu vejo um museu de grandes novidades 
o tempo não pára 
não pára não não pára!

...   ...   ...   ...

Saudades de ti ... homem e poeta Cazuza!



Janielson Martins


Um comentário:

  1. Notável e justa reportagem, sobre um notável homem.

    Parabéns, mais uma vez, pela excelente categoria das suas matérias, Janielson Martins.

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