não quero saber onde estou
gosto do vento
um dia perguntarei de onde ele vem
tenho medo de perguntar
e a morte no colo
que dor...
saber que estamos esperando
pela morte
O blogue – Comer e Saber – apresenta-se com o intuito de exterminar amarras. Impera-se em três rubricas: Sustento da Alma; Café com Letras; Gastronomia e Culinária, como ferramentas de promoção e fomentação de liberdades e pluralidades. Movimenta-se na consciencialização da noção de direito às criatividades, no débito da conjugação dos intrínsecos conceitos de SABER (enquanto fonte de SABOR) e o de SABER (enquanto fonte de CONHECIMENTO).
Flor o que tu pensa?
Queria dormir, dormir e nunca mais acordar para esse negócio parar de me perturbar. É sempre a mesma coisa, vivo vendo coisas que eu não queria ver.
E tu Folha oque pensa?
Eu queria pular de mim mesmo, para não ver coisas que eu não queria ver, esse monstro todos os dias me acorda de um friozinho que congela o meu corpo. Flor outro dia esse monstro colocou um bocado de monstros para correr atrás de mim, eu fui parar num lugar muito bonito, onde eu vi, plantas, árvores e uns negócios que iam para onde quisesse, será que tu estava lá?
Bem capaz folha, eu não me conheço, só penso, penso.
Também, queria tanto me reconhecer, mas não, aqui estou pensando, e sendo acordada por um monstro que coloca outros monstros para correr atrás de mim.
Ainda bem que esses caminhos nos levam a lugares que nos protege. Outro dia conheci Paulo, perguntei quem era ele, ele falou que era humano e que estava na terra há 60 anos, aproveitei perguntei se ele já me conhecia, ele falou claro que sim, você é uma planta que os humanos tanto usam, desde para aquecer e fazer móveis e casas, e que nós éramos muito importante para a vida dele e de todo os seres vivos na terra. Eu perguntei como eu era, ele falou que eu era muito bonita e que tinha uma cor verde bem escuro, que era para poder dormir mais, para a luz do sol não nos incomodar muito.
E o que é o sol?
É monstro que nos acorda todos os dias? É!
É sim ele é uma bola de fogo que todos os dias a terra dá uma volta e nós pensamos que é ele que vem nos ver, mais não é. A terra dá um giro de trezentos e sessenta graus, e é por isso que nós nascemos, por isso temos que os suporta porque ele não é um monstro ruim não. Só é porque nos acorda, e eu perguntei ao Paulo como era tu Flor.
Foi folha? E como sou eu?
Ele disse que não sabia se era tu, porque tem muito tipo e cores de flor, ele disse que as flores são as plantas mas delicadas, as flores são os tecidos dos que partiram...
ÁGUA TERRA, TERRA ÁGUA, ÁGUA TERRA
(Janiel Martins, RN/Brasil)
Tou sim? estou, tou sim? vou desligar. Estou dentro de um vulcão, aqui na Ilha Branca.
Água terra, terra água.
A complexidade da vida surgiu.
Dói tentar saber como a vida a surgiu.
É um pensamento não decepcionante.
Acho que foi assim: o espaço sempre existiu, ficou muito frio, começou a pegar fogo, criou cinzas, as cinzas...
E a vida, doida!
Acho que foram os gases. Os cientistas acreditam que foi dentro da água. Deve ter sido do cheiro do enxofre. O enxofre tem um cheiro ácido. Este ácido deve ter soltado muitas bolhas dentro da água. O ácido deve conter muitas cores. As cores viraram lagartinhas, as lagartinhas criaram raízes, para poderem ficarem quietas, pois as águas não deixavam elas quietas.....
E elas pensavam?
Sem quererem pensavam, acho eu. Aí elas morriam. Vou usar esta palavra para ser mais fácil pra tu Francivaldo. As feridas da morte criaram lagartinhas mais evoluídas e cá estamos, pensado sem saber.
E a Ilha Branca é bonita, Ruth?
Claro, a beleza está na organização de cada partícula.
Agora, se tu educares o teu filho a ser um robô das grifes, não haverá beleza em nada.
A Ilha Branca, de tão graciosa, ficou Graciosa e mora nos Açores, mas pode morar noutros lugares, germinados pelo requinte.
O requinte não necessita de exageros.
Flutuei por todos os lados
Na verdade fui levado
Os pensamentos empurraram-me
O corpo é tão delicado
O pensamento é tao bruto
Leva-nos a cada lugar!!!
Como equilibrar este peste
Que vê
Que até vê com os olhos fechados
(Original de Paulo Passos, em: https://sai-qolo-gi.blogspot.com/2025/07/a-pisca-pisca.html)
ERA UMA VEZ UMA
INSTRUTORA DE UM PROCESSO...
Um processo que
tinha cara de sério mas todo esbardalhado na sua interioridade, feirado por
algumas queixosas e imaturas psicólogas (diz-se!) e por alguém travestida de
instrutora. Alheadas de qualquer compromisso com o trabalho, esgotavam-se em
aparentar um compromisso sólido, e eficaz na representação, com o emprego.
...
Estava, a
instrutora do processo, bem longe das intenções e das possibilidades destas,
tanto institucional como academicamente. Ficou-se, como já habituada, pelas
sobras.
PRISCILA
PISCA-PISCA era mais um senão do academismo português (formada em Direito,
dizia, por uma qualquer universidade), materializado na
institucionalidade pública.
Conhecida por
Pisca-Pisca, não só pela razão do sobrenome, mas também pela facilidade com que
manipulava a intermitência entre a lógica e os seus feitios (de corpo e de
alma).
Era uma
intermitência regular, sendo que, em arena, a primeira sofria e falia (feitio
de corpo) por imposição da segunda (feitio de alma).
Era o jeito de
Priscila e no qual Priscila acreditava e bem se movia.
Colocadas as
hipóteses:
H.01
– A criatura é incompetente e negativamente discriminatória. (Cedência ao
preparado “drama de opereta” – lamúria, choradinho, vitimização e
representações afins, pela parte das psicólogas (e demais em eventualidade) em
questão).
H.02
– A criatura é manipulada pelas queixosas.
H.03
– A criatura sonega, deliberadamente, ocorrências, considerando outras, num
diferencial axiológico discriminatório, para o apuramento e descrição de
factos.
H.04
– A criatura inverte o sentido (lógico, dos valores e dos critérios que regem a
protecção institucional) do processo de inquérito, acusando e desconsiderando o
denunciador.
H.05
– A criatura está distraída ou é precipitada.
H.06
– A criatura é preconceituosa.
H.07
– A criatura é sexista no seu sentido feminista (aproveitamento da função de
relatora para benefício de um género).
H.08
– A criatura é tendenciosa/parcial
H.09
– A criatura confunde histórias narradas com histórias vividas.
H.10
- A criatura negligencia as denuncias e valoriza os enfeites de narrativas de
conveniência.
H.11
– A criatura promove a glorificação do incumprimento.
H.12
– A criatura legitima a mediocridade.
H.13
– A criatura julga.
H.14
- A criatura é, indubitavelmente, incompetente e nada deve ao mérito.
H.15
- A criatura tem mérito profissional.
H.16
- A criatura compensa-se pela doença do carácter.
H.17
- A criatura é incompleta.
Todas confirmadas... à excepção da hipótese H.15.
...
Priscila (Pisca-Pisca) sofria com as dores dos joanetes que, mais uma vez,
foram causadas pela insistência de usar sapatos que não estavam para o seu
amplo pôr de pé. Apertavam. Traiu-se, de novo.
Estava habituada. É parte integrante da imensidão da mediocridade que assola o
espaço.
A
warning...
COSQUINHAS NAS ESTRELINHAS DO CÉREBRO
(Janiel Martins, RN/Brasil)
Mergulhei na vasta solidão do corpo.
O que o pensamento pensa, acho que o silêncio pensou e fez o corpo para brincar no mundo.
Gosto de escutar o silêncio, lembrando do som dos ponteiros do relógio de parede.
Então, Ruth, estás a pensar?
Estava mergulhando, Eneston.
Este sentimento de flutuar deve ser quando éramos fetos, ou é uma construção do nosso corpo!
Sonhar é como os pássaros vivem, voam.
Tu sabes o que é o sonho, Eneston?
Fala a verdade.
Eu só gosto de sonhar porque vamos a lugares incríveis, mas tenho medo de entender as reações químicas e elétricas que o corpo precisa para sonhar. Acredito que sejam muitas e que muitas sejam malignas.
Até parece que o sonho faz mal?
Acho se eu entender certas coisas, perde-se a fantasia de viver.
Gosto de sentir cosquinhas nas estrelas do cérebro.
Parece que elas fogem atrás de respostas, já reparaste?
É aquela estrela que se forma e vai para longe procurar respostas do pensamento para o corpo.
Deixei a lua à minha procura.
Aqui estou.
Estais a falar só, doida?
Estava a pensar alto.
Nem todos os dias posso olhar para a lua, para ficar com saudades dela.
Fico triste quando a lua nasce nas minhas costa, acho que é a leste.
Depende, doida.
Sei lá, só sei que a lua me trás pensamentos e acho, até, que causa uma explosão de estrelinhas no cérebro mas só não podemos deixar os ouvidos pensarem.
Já basta ouvir, não doida?
É, as vezes é melhor ser inocente.
Gosto tanto de cair no pensamento.
É melhor deslizar-me.
Tu já reparaste, Francivaldo, que nós vamos onde queremos!
Como assim, doida?
Quando pensamos e sonhamos as estrelinhas que tem dentro do nosso cérebro explodem e devem torna-se fumaça e vão para onde queremos.
É engraçado o que que vimos fazer no mundo!
Ter duas fomes.
Ham!!!
A de comida e a outra.
Será que o teu olho, é o fim do ramo, chuchu?
As pessoas falam do olho da planta, deve ser o teu olho.
Sento assim, tu tem um bocado de olhos.
Que pena que tu não tem um a boca para falar com eu.
Já agora, lembrando, a boca das plantas fica nas raízes.
Tu tiveste foi sorte em ter-se expandido.
Já a vida humana não é muito justa, chuchu!
Uns têm de mais e outros nada.
Chuchu, eu acho que tu queres andar igual a nós, por isso é que tu cresces.
Não é?
QUEM COLOCOU CRISTO NA CRUZ
(Janiel Martins, RN/Brasil)
Há muito que somos uma peça decorativa
Não há mudança
Quem colocou Cristo na Cruz?
...
Na Terra somos o velho tempo
O pensamento vai como ejaculação
...
É desejo de continuar
E leve...
DOR DE CABEÇA
(Janiel Martins, RN/Brasil)
Sinto uma força a puxar-me
É a força da inocência
Dói, dentro da cabeça
É a eletricidade que tem o corpo
É bonito a complexidade do homem
Paulo Passos
Psicólogo Clínico
Braga/Portugal
Na criança o QUERER não é uma vontade.
É a procura da ausência do medo ou um inibidor de angústia.
É a
insistência na tentativa da sustentabilidade do prazer.
(repensem... as pressinhas -manhosas- na retirada das
chupetas...)
Edição original em: https://sai-qolo-gi.blogspot.com/2021/02/sustentabilidade-do-prazer.html
Publicado, originalmente, em Psicologia.pt a: 2019-04-21
http://www.psicologia.pt/artigosher cronica.php?trocar-o-pe-por-um-pe-deboi&codigo=CR0031
Paulo Passos
Psicólogo clínico, Braga/Portugal
"A mesa já estava atulhada de canecas vazias e de pratos com cascas de marisco que Aristides Galante tinha comido.
Eleutéria chamou o
empregado, pediu uma garrafa de vinho branco fresca, camarões e um gelado para a neta.
Aristides Galante pediu mais uma caneca de cerveja.
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Aristides
Galante era um poço desmedido de subalternidade para com a mulher.
Nunca foi considerado em nada, exceptuando-se a
consideração elevadíssima com que era
contemplado, pela garantia do dinheiro que injectava na família e sustentava os
cartões dourados de Eleutéria.
Dentro de casa,
Aristides Galante, não era tido nem achado.
Vendo-os na
rua, ele era um penedo que seguia, sempre dois ou três passos atrás, a gaiteira e determinada mulher.
Homem rude, estatura média, abdómen bem saliente, tinha conseguido fortuna
à custa do seu trabalho, digno
de se dizer! Mas também às custas de algumas estratégias menos transparentes e de malabarismos que escondiam meandros que Aristides Galante tão bem conhecia.
Trabalhava na
construção civil desde os seus onze anos de idade, altura em que saiu da escola
com a terceira classe.
Burgesso era
a sua natural evidência e lucro era o seu maior objectivo - pilares da sua existência.
Fora de casa e, sobretudo no trabalho, não tinha pejo à exploração de
outros e dos próprios funcionários
da empresa. Nestes, no que dizia respeito ao pagamento que lhes eram devidos, arranjava sempre forma de cortar no número de horas
trabalhadas.
Já dava para
mais uma mariscada bem regada, que tanto apreciava.
Nunca passava muito tempo sem que a maior travessa, na marisqueira que mais
apreciasse, não estivesse transbordando à sua
frente, juntamente com fartas canecas de cerveja, onde as comezainas entravam
bem pelo tempo adentro.
Já recostado,
arrotava Aristides Galante, enquanto tirava bocados de marisco dos dentes, com
uma unha de lagosta.
O suor que
lhe escorria pelo rosto era afastado com as costas da mão, ainda com a pinça de um lavagante presa pelos dedos.
No rebordo da mais recente caneca de cerveja
iam-se já acumulando lascas de marisco. Glórinha adormecera na cadeira sem ter acabado de lamber o segundo gelado.
Sem assunto,
Aristides Galante e Eleutéria terminavam a manja, para sustento do peso dos feitios, feitos corpos.
Aristides Galante tentava levantar-se, mas a manobra foi dificultada pelo
excessivo carregamento de peso
sobre as, já meio falidas, articulações das pernas e pelos desequilíbrios adjacentes.
Eleutéria, com as mesmas privações de habilidades, proclamava que ainda
havia de chegar o dia em que mandaria trocar o pé, de Aristides Galante, por um
pujante pé de boi."